8 de julho de 2008

Resenha Veja de 2005


Cinema: Ele voltou – e agora é sério


Batman Begins volta às origens do Homem-Morcego para ressuscitar umadas marcas mais poderosas do cinema

Isabela Boscov

Em 1997, a Warner viu sua propriedade até então mais valiosa – a franquia Batman – sofrer uma morte indigna com Batman & Robin, uma extravagância igualmente execrada pelo público e pela crítica. Desde então, porém, o estúdio juntou ao seu catálogo Matrix, Harry Potter e O Senhor dos Anéis (este em parceria com a New Line), e terminou por provar-se o mais habilidoso entre todos os grandes de Hollywood em explorar o potencial das séries cinematográficas. Animada por esses sucessos e pela lembrança do 1,3 bilhão de dólares que o Homem-Morcego rendeu na bilheteria antes de seu falecimento, a Warner vinha estudando formas de ressuscitá-lo. Pensou-se, por exemplo, num encontro entre Batman e Superman – descartado em razão do temor de que um filme malsucedido enterrasse ambos os personagens.


Trabalhou-se também com a idéia de entregar ao enfant terrible Darren Aronofsky, de Réquiem para um Sonho, uma adaptação da série de quadrinhos publicada por Frank Miller no fim dos anos 80, que mostra Batman já envelhecido e amargo – e que seria estrelada por Clint Eastwood. O projeto não vingou, em parte pela suspeita de que o público adolescente rejeitaria um herói enrugado. O óbvio, afinal, se impôs. Batman Begins (Estados Unidos, 2005), que estréia nesta sexta-feira, reinicia a série pelas origens de Bruce Wayne, que na infância viu os pais ser assassinados por um ladrão e jurou vingar-se dos malfeitores de Gotham City, a caótica metrópole em que mora.


Um herói jovem e que tem ainda toda uma história por ser contada – essa é a aposta, bastante razoável, da Warner e da DC Comics para reavivar o interesse por uma marca que, literalmente, não tem preço. O primeiro filme, de 1989, só perde para os dois Homem-Aranha em bilheteria associada a um herói dos quadrinhos – e só em seu ano de estréia gerou 1 bilhão de dólares em merchandising, de acordo com o mineiro Sílvio Ribas, um estudioso do tema, cujo Dicionário do Morcego (Flama; 276 páginas; 35 reais) chegará às livrarias junto com o filme.


Os créditos de Batman Begins são sólidos. O filme é dirigido pelo inglês Christopher Nolan, do originalíssimo Amnésia, e estrelado por outro expoente do cinema independente, o galês Christian Bale, de Psicopata Americano. Michael Caine, Morgan Freeman, Liam Neeson, Ken Watanabe e Gary Oldman compõem um elenco de apoio brilhante – e que tem papéis suculentos e bem escritos com que trabalhar. Por um golpe de sorte, até a atriz que faz a namorada de Bruce Wayne se tornou objeto de notoriedade súbita às vésperas do lançamento – Katie Holmes, a quem Tom Cruise dedicou espalhafatosas declarações de amor há duas semanas.


Nolan é também um diretor inteligente, que sabe distribuir seu tempo entre a ação e o drama (Gary Oldman está especialmente bem como o desiludido Sargento Gordon, a muitas etapas ainda da promoção que o transformará no comissário de polícia de Gotham), e demonstra uma saudável desconfiança da eficácia dos efeitos digitais. Uma das razões pelas quais Batman Begins custou 150 milhões de dólares é que a maior parte dos cenários, da caverna de Bruce Wayne às favelas de Gotham, foi efetivamente construída, e não gerada em computador. Menos sombrio e gótico do que os dois Batman de Tim Burton, e totalmente livre do tom de paródia dos dois episódios dirigidos por Joel Schumacher, Batman Begins recoloca nos trilhos a criação do quadrinista Bob Kane.

O que falta ao filme, porém, é audácia. Inclusive a audácia de investir num humor mais pérfido, a que o personagem convida e que é o território por excelência de Nolan e Christian Bale. O milionário Bruce Wayne, afinal, não tem superpoderes. É um playboy de dia e, de noite, um sujeito que gosta de se vestir de morcego para patrulhar Gotham City – mais ou menos como o protagonista de Psicopata Americano, yuppie durante o expediente e assassino serial nas horas vagas, que Bale interpretou com notáveis apetite e senso do absurdo. Tanto comedimento, claro, é uma reação ao exagero que redundou no fracasso do personagem, oito anos atrás. Mas as perspectivas são boas. Assim que Bruce Wayne reencontrar seus dentes (e tanto Nolan como Bale já estão contratados para mais dois episódios), Batman será, novamente, irresistível.