24 de agosto de 2008

Batman é o Rockfeller com asas


Arnaldo Jabor

Fui ver o "Batman" de novo e, como o Xexéo disse, vi um filme diferente. Não do que ele assistiu, mas diferente do que eu tinha visto. Muita coisa tinha me escapado, não porque o filme seja complexo, mas porque é emaranhado. Isso. Assim como o mistério da arte é abolido no entretenimento (palavra-chave do show business), nos atuais filmes de ação, a complexidade é substituída por um simulacro: o proposital emaranhamento que nos dá a sensação de profundo.

Porém, se descascamos as camadas de significação, em meio ao enxame de efeitos especiais, da montagem frenética, incessante, podemos ver Batman como sintoma, como queriam os antigos professores da filmologia francesa. Assim, tento apontar indícios do mundo que produziu Batman e alguns fatos e sentimentos inconscientes que ele evoca.

Nos filmes violentíssimos dos anos 70, com atores brutais como Sylvester Stallone, Hollywood inventou o prazer do sangue, das facas dentadas, dos peitos estourados, das metralhadoras fálicas. Era a safra do cinema pós-Vietnã, como uma vingança na tela pela derrota humilhante dos americanos pelos magros guerreiros comedores de arroz; era um show de força para compensar o fracasso da guerra.

Mais tarde, antes do 11 de setembro, rolou a grande onda de filmes sobre a destruição de Nova York. Podem conferir: os EUA invadidos por godzillas, por discos voadores letais, por asteróides, por explosões no "Armageddon" (há em "Godzila" uma cena absolutamente igual à multidão real de 2001, fugindo pela rua, com as torres se suicidando ao fundo).

Osama Bin Laden realizou esta volúpia destrutiva, esse estranho sonho de auto-extermínio dos americanos. Por quê? Ninguém filma Paris acabando ou Londres em pó. Mas, americano paranóico só pensa em inimigos. As próprias torres encarnavam uma arrogância arquitetônica, pedindo bombardeio. Com a tragédia do WTC, algo mudou. Dá para ver em "Batman" que a queda das torres está ali, como uma cicatriz na dramaturgia. Estava criada a era de ambivalência no cinema. Acabaram mocinhos x bandidos.

Depois, tanto a violência dos "estoura-peitos" e o suicídio virtual dos filmes-catástrofe deram lugar a uma cultura de massas mais reflexiva. Hollywood, claro, comercializou esta crítica ao sistema, com heróis anarquistas ou psicopatas ameaçando a boa sociedade.

E mais: com a espantosa evolução da reprodução digital, nasceu um novo tipo de violência - a violência simbólica, a violência da forma, as tempestades de cortes infinitos.

Esses filmes desabam torres de som e imagem sobre nossas cabeças, nossos olhos ficam cegos diante de tanta informação, que jorra como lava para não pensarmos. Nos filmes de ação de hoje, as personagens principais são as coisas, os computadores, a velocidade, os celulares mágicos, a virtualidade.

Somos manipulados como um videogame ao avesso, onde nós somos o jogo. E, ao sair, pensamos; onde está a vida real? Onde estão os comportamentos humanos verdadeiros?

Já se disse que o 11 de setembro em NY foi o único momento de retorno do real na escalada do mundo virtual. Por isso, só nos resta detectar alguma realidade não no filme, com seus clichês morais, mas na produção que o criou. A realidade está fora da tela, em motivações inconscientes.

"Batman" nos fascina há décadas porque é o super-rico que defende os homens comuns. Uma espécie de Rockefeller com asas, um bilionário a favor do povo. Onde estão esses bilionários do bem? Salvando a África, abrindo concessões em Doha? Há! Há!

Por outro lado, o revolucionário Coringa ataca o povo, mas despreza o dinheiro e o queima. Coringa é o superpsicopata com visão de mundo que parece saber mais que nós, caretas mergulhados em dúvidas morais. Sim, ele é uma metáfora do Osama e seus homens-bomba.

Osama, o Coringa do deserto, acabou com a idéia de guerra. Osama nos ataca de outro tempo - fora da história.

Ao errar o alvo contra a Casa Branca, os terroristas acertaram num poder muito maior, primeiro sinal de que a ordem política não significava muito mais. O verdadeiro poder estava em outro lugar. No "Batman", a política e a polícia tentam dar conta da imensidão da corrupção e da criminalidade global. "Batman" é a elaboração a priori de outros atentados que acontecerão, um dia. Quando Osama-Coringa atacará de novo?

"O terrorismo não tem motivos concretos, não tem sentido algum num mundo saturado de sentido, de eficácia, de finalidade. O terrorismo é uma singularidade. E a finalidade única da singularidade é destruir a totalidade", resumiu com brilho Jean Baudrillard.

Este filme não é o Bem contra o Mal. É o Controle contra a Anarquia. Controle que o próprio filme, em sua forma, exerce sobre nossas cabeças. Gozamos o tempo todo com o mal e, no final, os produtores nos concedem o arbítrio de escolher o bem, quando a tecnologia e as cenas celebram o mal durante toda a projeção.

Este meio é muito mais importante que as mensagens que, ao final, vêm magramente em pequenas lições morais defendendo a família, a solidariedade, o amor. Como apontou A.Bloch, permite hipocritamente que Batman aja além da lei. Batman invade Hong Kong e concorda em ocultar a loucura do promotor que cai na vingança do olho por olho. E parece dizer: "Isto tudo é porque estamos em um tempo de exceção". O filme é uma elaboração da política do medo sim e de leis tipo Patriotic Act (Ata Patriótica).

Há uma suprema ironia no final. No filme, o Coringa não morre, para permitir a continuação da saga, para os lucros de futuras produções. Mas, na vida real, o Coringa Heath Ledger morre sim, logo depois. Que prejuízo...

Na verdade, nada disso tem importância. É apenas um filme; mas é um claro sintoma da inquietante sociedade que o produziu.

Fonte: O Estado de São Paulo, 5 de agosto de 2008.

PS: O autor deste blog também não resistiu à tentação de reproduzir aqui o excelente texto de Jabor no Estadão, dias atrás. A ilustração do artigo também me motivou a perguntar: Frank Miller desistiu de vez da história de Batman versus B. Laden?