27 de dezembro de 2008

Bruce Wayne & Silver St. Cloud

O amor perdido de Batman

Roberto Guedes

Em 1976, a DC Comics passava por uma reestruturação editorial das mais periclitantes e precisava a todo custo chacoalhar suas bases para ver se voltava a encarar a Marvel em termos de vendas. Jack Kirby tinha voltado “pros braços” de Stan Lee, e a Distinta Concorrente não conseguiu contra-atacar levando John Buscema para suas dependências. Daí, pensaram: "Quem é o maior roteirista da Marvel no momento?", e contrataram Steve Englehart.

Deram sorte, pois Englehart queria umas férias, empanturrado que estava de quadrinhos, e prestes viajar pra Europa. Ele havia feito um estardalhaço danado em séries como Captain America, Avengers, Defenders e Vampirella, tornando-se o grande nome da primeira metade dos anos 1970 – algo similar ao que Kurt Busiek fez na década de 1990 e Michael Bendis, de uns tempos pra cá (se me permite, na minha opinião Englehart é melhor que ambos).

O pessoal queria quer ele revitalizasse a Liga da Justiça da América, mas o escritor disse que só faria isso se pudesse escrever também as HQs de Batman. A única imposição da DC foi para que ele repetisse o clima soap opera da Marvel em Detective Comics. Para isso, até escalaram o desenhista Walt Simonson pra série (na ocasião, a arte de Simonson era puro Buscema). O artista só desenhou as duas primeiras aventuras do Cruzado Embuçado, e em seu lugar entrou o novato Marshall Rogers – um arquiteto fanzão de Dick Sprang, com um layout elegante e diferente de tudo que era publicado até então. Rogers já vinha desenhando algumas histórias back ups do Elektron, Canário Negro, etc., mas ao assumir as tramas de Batman escritas por Englehart houve... digamos, um “clic”! Show de bola!

Nessas poucas, mas memoráveis histórias, pela primeira vez em quase 40 anos de publicação, Bruce Wayne deixou de ser apenas a máscara, o “disfarce” de Batman, para se tornar o foco principal da série. Ele se apaixona por uma mulher linda e inteligentíssima chamada Silver St. Cloud, que descobre sua identidade por pura dedução (ora, a mulher perfeita pro maior detetive de todos os tempos, não?).

Englehart contribuiu com diálogos, frases e balões de pensamentos memoráveis, além de motivações ainda insuperáveis para personagens como Bruce, Alfred e Dick Grayson. O roteirista resgatou do “calabouço do esquecimento” alguns vilões como Pistoleiro e Hugo Strange, e escreveu a batalha mais emblemática do Cruzado Embuçado com o Coringa. O final é simplesmente apoteótico, e não menos angustiante. Daqueles de deixar qualquer leitor insensível com um nó miserável na garganta.

Piegas? “Nem a pau, Juvenal!”... Englehart partiu, mas salvou a revista do cancelamento. E os leitores pediram mais! Só que o cara já havia se mandado, cedendo a vaga a Len Wein, que entrou e ainda produziu mais duas HQs com Rogers, que se tornaram um epílogo sensacional, mas sem a presença de Silver. Na verdade, iniciou a volta da Mulher-Gato às revistas ao universo do Morcegão como o interesse amoroso de Bruce. Só que sem o mesmo charme.

Na verdade, nos anos seguintes, todos os demais editores e roteiristas fizeram questão de não utilizar Silver outra vez. Temiam quebrar a mítica estabelecida naquele período. E a personagem acabou “esquecida” (não pelos leitores, claro) até que, no filme de 1989, usaram a fotógrafa Vick Vale travestida de Silver. Ora, o cabelo platinado de Vick, o fato dela descobrir a identidade do herói, e a luta com o Coringa nas alturas, são óbvias referências às histórias de Silver e Batman escritas por Englehart. O autor ficou envaidecido, mas não reclamaria se fosse creditado e ganhasse uns royalties.

No finalzinho do século passado, Archie Goodwin e Marshall Rogers produziram a série Siege dentro de um dos títulos mensais do herói – inédita por aqui, resgatando Silver. Mas essa trama não teve muito impacto. Goodwin sempre foi um ótimo argumentista, mas Silver não era dele. Era de Englehart. Porém, em 2005, Englehart, Rogers e Terry Austin (na arte-final) se uniram outra vez e produziram a mini Dark Detective, cuja trama se passa pouco tempo depois dos acontecimentos narrados em 1977, e traz Silver de volta à vida de Bruce. E como traz!
WOW!

Silver, agora noiva de um proeminente político, se vê, outra vez, envolta em sentimentos e situações conflitantes com o ex-amado Bruce, e com “aquela mania” dele de sair à noite pra combater o crime. Espantalho, Duas-Caras e Coringa completam o “rolo”, propiciando emoção o suficiente pra deixar você com os cabelos em pé, intrepid one. Mas não há supervilão, fidelidade partidária ou anel de noivado que resista a um passeio pela batcaverna com seu verdadeiro amor – se é que me fiz entender agora, meu chapa. Ah, Silver...

Embora o traço de Rogers não estivesse tão bonito como outrora, ainda assim foi por demais competente e atraente para os nossos olhos. Fora isso, o texto de Englehart parecia tão sensacional quanto antes, proporcionando momentos incríveis. Uma história muito boa, acima da média mas, infelizmente, subestimada por uma parte da crítica especializada atual.

Todavia o povo não é tolo, e a volta de Silver fez sucesso nos EUA, o que motivou a DC encomendar ao trio Englehart/Rogers/Austin uma seqüência para Dark Detective. Mas com o falecimento de Rogers em 2007, os fãs ficaram inconsoláveis. Pra piorar, Englehart meteu a boca no trombone em seu site (veja aqui: http://www.steveenglehart.com/Film/Dark%20Knight%20movie.html) ao alegar que, mais uma vez, a Warner utilizou suas histórias em uma produção cinematográfica sem lhe dar nenhum crédito.

Na avaliação de Englehart, o mega-sucesso de bilheteria de 2008, o filme Batman – O Cavaleiro das Trevas seria 70% plagiado da HQ Dark Detective, onde apenas trocaram os papéis de alguns personagens, mas cuja espinha dorsal do roteiro é praticamente idêntica, ao cúmulo de se valerem também de elementos narrados na continuação jamais lançada da minissérie (que Rogers, inclusive, chegou a desenhar algumas páginas antes da morte).

O batfã brazuca, desconsolado, não vê nenhuma luz no final do túnel que indique o lançamento de um encadernado com as histórias clássicas dos anos 1970, tampouco de uma publicação por estas bandas de Dark Detective – não que eu não tenha feito o meu lobby, acredite. Quanto a Englehart, apesar do seu desabafo, não parece pretender que o caso chegue aos tribunais. Lamenta, contudo, a posição da DC de cancelar a seqüência, em vez de escalar outro artista para substituir Marshall Rogers.

Afinal, qual seria o desenlace para o conturbado romance entre Bruce Wayne e Silver St. Cloud? Ficariam juntos ao final das contas, ou como Rhett Butler e Scarlett O’Hara em E o Vento Levou, estariam destinados ao sofrimento eterno no vale dos corações partidos e do amor mal resolvido? Só há uma coisa a dizer: que pena.

FONTE: Roberto Guedes no GUEDES MANIFESTO em 12/14/2008

Notas sobre quirópteros


NOTA DO BLOG: Encontrei no fundo do baú esse texto abaixo, que escrevi no começo dos anos 90, reunindo informações sobre "o mais surpreendente mamífero" depois do homo sapiens. A maioria dos dados foi tirada de entrevistas na TV, que assisti com muita atenção. Naquele tempo, não havia internet nem eram tão comuns os computadores. Alguém tem algo para me atualizar?

Apontamentos sobre morcegos

Sílvio Ribas

Poucos sabem, mas três quartos dos mamíferos do planeta têm hábitos noturnos. Dentre estes, o mais famoso é o morcego, o único do grupo ativamente capaz de voar. E, curiosamente, o primeiro cientista a provar que eles não eram aves e sim mamíferos foi Aristóteles. Outra curiosidade é que por ser rico em nitrogênio e fósforo, seu excremento era utilizado no século passado na fabricação de pólvora por habitantes próximos a cavernas e grutas.

Cientificamente, os morcegos são conhecidos por Quirópteros (Quiro = Mão + Ptero = Asa). Com um ancestral comum ao homem há 95 milhões de anos, o morcego possui 875 espécies - sendo 70 destas existentes no Brasil - somando no mundo 19 famílias e 173 gêneros. Estas criaturas da noite (embora exista uma espécie não-nictobata) representam, por exemplo, aproximadamente 30% dos mamíferos existentes na América Tropical.

Os morcegos são classificadas de acordo com seus hábitos alimentares, isto é, sua dieta ou presa principal ou exclusiva: insetos, frutos, peixes, néctar e sangue. Os grupos decorrentes são, então, os insetívoros, frutívoros, nectatívoros, carnívoros (rãs, outros morcegos, roedores etc.) e hematófagos (vampiros).

Animal pequeno, escuro e de forte odor, o morcego é antes de qualquer coisa um grande caçador. Para se ter uma idéia desta característica, basta lembrar que os consumidores de peixes (pescadores) comem em torno de 40 por noite. Já o morcego insetívoro devora cerca de 200 a 600 insetos por noite e o que se alimenta de rãs costuma caçar até 90 por semana.

Algumas espécies estão ameaçadas de extinção por que os morcegos só se atingem a sua maturidade sexual a partir dos três anos e a fêmea gera um filho por vez, uma ou duas vezes por ano, com gestações que variam de 80 a 210 dias. A maioria dorme de cabeça para baixo, graças a tendões especiais em seus pés. Alguns chegam a morrer e a permanecer nessa posição, que é a que ele passa mais tempo em vida. Podem levantar vôo vertical e alguns podem até nadar.

SONAR

Uma de suas principais características dos morcegos é a de emitir ultra-sons que servem para detectar a presença de obstáculos no escuro, ou para localizar suas presas. Os sons que emitem para se orientar são gerados na laringe e transferidos pela boca ou narina. A intensidade de suas emissões varia entre 20 e 180 Kilociclos. Este processo é conhecido por eco localização". Em outras palavras, os morcegos podem "ver" pelos sons. Mas também podem distinguir outro animal pela língua (paladar).

Do ponto de vista ambiental, o morcego é um animal que possui uma relação explicitamente positiva na Ecologia. O morcego frutívoro é o principal formador de florestas, pois é o principal polinizador de bosques, reflorestando inclusive áreas desmatadas. Isto porque costuma lançar ao solo em torno de seis mil sementes por noite. Uma grande variedade de populações de insetos são controladas pelos quirópteros. Um dado interessante: sabem evitar as rãs venenosas através da decifragem do tipo específico de som que estas emitem.

Pesquisas recentes mostram que os morcegos podem ser domesticados e não são inteiramente cegos, como se supunha. Eles podem se ambientar em ambientes com luz vermelha, pois traz a impressão de escuridão. As asas do morcego são formadas por uma pele fina, mais que uma luva cirúrgica de borracha, mas não é fácil de se furar, além de se reconstituir rapidamente. As línguas dos morcegos chegam a ter o tamanho equivale a um terço de seus corpos.



VAMPIROS

No Brasil existem três espécies de morcegos hematófagos. O morcego vampiro possui 22 dentes sendo os maiores os incisivos. Sua saliva é anti-coagulante. Possui um sensor de calor na narina para detectar o sangue. Ele lambe e não chupa o sangue, como costuma-se dizer, podendo sorver cerca de 50% de seu peso (o peso médio é de 35g). Para sorver o sangue, o morcego provoca um pequeno ferimento no animal e, durante 15 a 20 segundos, ingerindo até 30 mililitros. O morcego hematófago só ataca o homem quando há uma super-população e padece de fome ou quando é atacado.

O Vampiro, cujo nome científico é Desmodus Rotundus, é um morcego de grande porte e aspecto repelente, da família dos Filostomídeos (28 a 34 dentes e apêndice nasal bem desenvolvido). São três gêneros: Diphyla, Desmodus e Dialmus e Desmodus Rotundus. Os hematófagos são os desmodentídeos.

Tal espécie possui as seguintes características distintivas como o dedo médio de sete falanges completamente ossificadas, uma saliência na folha do focinho, um pequeno e rudimentar apêndice nasal em forma de disco, incisivos estreitamente contíguos e grandes e falciformes, molares, rudimentares e ausentes. O total de dentes varia entre 20 e 26.

O vampiro é o mais comum entre os hematófagos (que se alimentam de sangue). Para fisgar sua vítima, pousa em silêncio quando ela está dormindo, tocando-a apenas com a planta dos pés e os calos dos polegares. Com os dentes incisivos superiores, cortam a pele onde é mais fina, fazendo um corte de aproximadamente 13 mm de comprimento por seis de largura e cinco de profundidade. Aplica os lábios na ferida e lambe. Sua saliva possui qualidade anticoagulante, representado uma perda de 60g por animal cada vez que é ferido. Persistente, ele sempre procura a mesma vítima e a ferida continua sangrando pelo menos meia hora após a picada.

RAIVA

Os morcegos vampiros são potenciais transmissores de hidrofobia (raiva) e podem também atacar os homens. A raiva transmitida pelos morcegos tem ciclos de expansão de 10 em 10 anos com a super-população destes animais. Somente nos casos de excesso de contingente é que o vampiro ataca o homem.

Quando existe um desequilíbrio na cadeia alimentar, como a criação, pelo homem, de rebanhos de gado, a população de morcegos hematófagos se expande exagera e desproporcionalmente. As autoridades sanitárias e ligadas à agricultura e veterinária promovem caçadas deste animal para controlar seu desenvolvimento populacional.

A captura deste útil animal - e circunstancialmente nocivo - pode ser feita com redes finas de nylon presas em postes de bambus sobre trilhas e águas. Assim, pode-se pegar de 25 a 30 morcegos por dia. A freqüência de vibração das varas desnorteia o morcego. Este teste pode ser feito também com aparelhos de geram freqüências sonoras específicas.

O controle dos morcegos hematófagos é geralmente feito com a utilização de uma pasta anti-vampírica aplicada no dorso de um exemplar capturado. Ao ser solto, ele retorna ao seu bando de origem e contamina outros vinte que vêm a se esfregar nele ou mesmo lambê-lo. Exemplo deste trabalho é o dos órgãos públicos de apoio à atividade rural, tais como ministério e secretarias de Agricultura ou institutos de pesquisa do setor.

Os vampiros são em número bem reduzido. Dos cerca de seis mil de morcegos existentes na cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, apenas 60 são vampiros, isto é, em torno de 1% do total. No Rio, os principais tipos de morcegos são os seguintes: "de casa", frutívoro, pescador, beija-flor, cauda-de-rato, lambe-lambe e, finalmente, vampiro.



FONTES

- Entrevista no programa Jô Soares 11 e Meia, SBT, do biólogo Carlos Esverate (Casa Noturna do Rio), levada ao ar no dia 22/12/92 (Rio).
- Entrevista no programa Sem Censura, TVE, do professor Rogério Serrão Piccinini, diretor da UFRRJ, levada ao ar no dia 03/11/93.
- Enciclopédia Britânica.
- Programa Globo Repórter, Rede Globo - 15/11/91 (Secret World of Bats, programa da BBC de Londres).
- Almanaque do Bode, boletim do Sindicato dos Telefônicos - 1993 (Sinttel-MG, Belo Horizonte).
- Planeta Vida - TV Cultura (03/02/93).