2 de fevereiro de 2009

Batman 70: a primeira reportagem

O jornal O Tempo, de Belo Horizonte, publicou ontem a primeira reportagem sobre os 70 anos de Batman, a serem comemorados em 2009. O texto veio acompanhado de resenhas e dicas. Na imagem ao lado está a página impressa que circulou no domingo, com texto principal assinado pelo repórter Douglas Resende. Abaixo reproduzo a continuação da capa.

AS FACETAS DE BATMAN NO CINEMA

Carlos Quintão
(Especial para O Tempo)

Se o Homem-Morcego completa em 2009 seus 70 anos, sua trajetória no cinema é apenas quatro anos mais nova. Mas o personagem mantém sua grande forma, haja visto o sucesso monumental de “Batman – O Cavaleiro das Trevas” perante crítica e público no ano passado. Ao longo dessa trajetória, porém, as adaptações do herói para o cinema e a TV mais desagradaram que conquistaram os fãs originais, mas sem dúvida serviram para expandir a fama do personagem para além dos limites dos quadrinhos.

A relação de Batman com o cinema antecede sua própria estreia nos quadrinhos. Os criadores Bob Kane e Bill Finger admitidamente se inspiraram em múltiplas fontes fílmicas (em conluio com o desenho do Homem Voador de Leonardo Da Vinci e o seriado de rádio do Sombra) para compor seu rebento. Mais precisamente em duas adaptações de uma peça da Broadway sobre um criminoso mascarado, uma muda (“O Morcego”, 1926) e outra falada (“The Bat Whispers”, 1930), ambas dirigidas por Roland West; e na versão de “A Marca do Zorro” (1920) estrelada por Douglas Fairbanks. Batman aproveitou também algo do clima expressionista de “O Gabinete do Dr. Caligari” (1920) e do horror hollywoodiano de “Drácula” (1931).

Com o cinema presente em sua gênese, não surpreende que eventualmente o herói fosse parar na telona, o que aconteceu em forma de seriado cinematográfico da Columbia em 1943. Sua estética mais urbana e realista permitiu que sua estreia no cinema já fosse em live-action, ao contrário do colega Superman, que ganhara uma série animada dois anos antes, e que só adotaria um corpo de carne e osso em 1948. Já ao lado de Robin, combatia o Dr. Daka, o criminoso líder de uma organização de sabotagem e espionagem japonesa (era uma época em que a Segunda Guerra ditava os criminosos).

TELEVISÃO
Em 1966, Batman conquistava a TV com a série responsável por grande parte de sua (má) fama. O Batman da TV era uma releitura assumidamente cômica e com visual inspirado na pop art, que não fazia questão de esconder os rumores, surgidos a partir do livro “Sedução dos Inocentes” (1954), do psicanalista Fredric Whertam, de que sua relação com Robin ultrapassava a de tutela e companheirismo no combate ao crime. Recheada de frases de duplo sentido e situações constrangedoras, a série se aproveitou bem da contracultura e virou sensação, durando três temporadas e rendendo ainda um longa cinematográfico. “Batman – O Filme” (1966) funcionava como um pot-pourri da série, com o herói enfrentando todos os vilões ao mesmo tempo.

TIM BURTON
Batman recuperaria a seriedade nas telas com a visão sombria de Tim Burton e seu “Batman” (1989). Se enquanto cinema o resultado final era meio desconjuntado e apressado, o filme de Burton serviu ao mesmo tempo para apresentar ao grande público o lado negro do personagem – que vinha sendo desenvolvido nas HQs por artistas como Frank Miller e Alan Moore – e para abrir as portas em Hollywood para adaptações mais ousadas, inteligentes e adultas. É graças ao Batman de Tim Burton que temos, 20 anos depois, o grande cinema apresentado em “O Cavaleiro das Trevas”, de Christopher Nolan. Burton configuraria melhor seu mundo expressionista na continuação “Batman – O Retorno”, que, apesar do protagonista continuar sendo o inadequado Michael Keaton, funcionaria bem melhor enquanto adaptação. Após o carnaval de mau gosto promovido pelas duas sequências de Joel Schumacher (“Batman Eternamente”, 1995, e “Batman & Robin”, 1997), o herói atingiria a maturidade cinematográfica na visão realista de Nolan e seus “Batman Begins” (2005) e “O Cavaleiro das Trevas” (2008). Um terceiro filme pelas mãos de Nolan já está sendo preparado para 2011, quando o Morcego sopra as 68 velinhas de seu bolo cinematográfico.

CINE-CRONOGRAMA

1943
Batman sai dos quadrinhos para as telonas em seriado cinematográfico da Columbia

1966
Lançado primeiro longa sobre o personagem – “O Morcego”, de Leslie H. Martinson

1989
Estreia “Batman”, de Tim Burton, com Michael Keaton no papel do herói

1992
Estreia “Batman: O Retorno”, novamente com Keaton

1995
Joel Schumacher assume a direção e lança “Batman Eternamente”, agora com Val Kilmer como Homem-Morcego

1997
Estreia “Batman & Robin”, também dirigido por Schumacher, mas tendo George Clooney como o Morcego

2005
Christopher Nolan lança “Batman Begins”, com Christian Bale como protagonista

2008
Estreia “Batman – O Cavaleiro das Trevas”, também de Nolan, com Bale, e Heath Ledger como Coringa

FIQ HOMENAGEIA MORCEGO

Ao longo dos seus 70 anos, a figura de Batman assumiu muitos contornos. A evolução dessas diferentes formas que o herói assumiu, nas mãos de inúmeros artistas, poderá ser acompanhada numa exposição em sua homenagem, este ano, no Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ), que acontece entre os dias 6 e 13 de outubro, em Belo Horizonte. Desde o seu nascimento sombrio em 1939, com Bob Kane, passando pela estética kitsch dos anos 60, pelo retorno às tintas carregas de Frank Miller e Tim Burton, nos 80, até sua morte e ressurreição recentes, a trajetória do Homem-Morcego será contada através de dezenas de itens do acervo particular do colecionador Ivan Freitas da Costa, curador da ala norte-americana do FIQ. “Ainda estou fazendo a curadoria – não decidi o que vou levar. Mas tenho uma lista de mais de 200 itens, entre desenhos originais e revistas para traçar um panorama da história e da evolução do personagem”, diz Ivan. Ele lembra que, além do desenvolvimento do personagem, “biograficamente”, a exposição pretende mostrar as nuanças na forma como ele foi representado pelos diversos artistas ao longo dos anos.

“Como o FIQ é o único evento de quadrinho desse porte no Brasil, minha responsabilidade é trazer originais de artistas importantes, pensando no visitante brasileiro que não tem acesso a esse material”, diz Ivan, que esta semana participa da New York Comic Con – convenção de quadrinhos norte-americana equivalente ao FIQ, mas “mais comercial” –, no intuito de adquirir material e convidar artistas para o festival brasileiro. Contar a história da evolução de Batman é narrar também o desenvolvimento da linguagem das histórias em quadrinhos. “Ninguém chega aos 70 anos igual. E o Batman foi caminhando junto com a evolução da história dos quadrinhos. Na década de 80, por exemplo, o Robin foi assassinado pelo Coringa e a história vai ficando mais pesada. ‘O Cavaleiro das Trevas’ (de Frank Miller) é um marco da história do quadrinho, não só do Batman, porque conseguiu chegar mais fundo na densidade e os quadrinhos já não eram mais coisa de criança.” (Douglas Resende)



Fonte: O Tempo (01/02/2009)