15 de março de 2009

Ferreira Gullar e os morcegos

Encontrei essa coluna do grande poeta na Folha de S. Paulo entre meus milhares de recortes de jornal. Publico agora para registro perene e eletrônico.

"Já que, neste momento, você não tem o que fazer (do contrário, não estaria lendo esta crônica), proponho-lhe refletir sobre a seguinte questão: existe relação causal -isto é, de causa e efeito- entre o funcionamento dos órgãos sexuais e o funcionamento cerebral? Melhor dizendo, transar demais pode resultar em pensar de menos? Ou, invertendo a pergunta: pensar demais pode ameaçar a sobrevivência da espécie?

Certas pessoas, para quem o progresso tecnológico -fruto da inteligência humana- pode levar ao desastre ecológico total, dirão que sim, ameaça; já outros, para os quais a inteligência é a própria essência do homem, dirão que não, e podem alegar que as espécies animais que se extinguiram não eram dotadas de inteligência.

Mas você há de se perguntar por que venho agora, a propósito de nada, levantar essa questão. Respondo que, na verdade, não é a propósito de nada, mas de uma notícia que li, faz alguns dias, sobre morcegos. A notícia dizia, resumindo-a, que alguns morcegos machos têm de pagar um preço para manter seu poder de reprodução: ter cérebros menores.

Pesquisadores da Universidade de Syracuse, de Nova York, observaram que, em determinadas espécies, cujas fêmeas são promíscuas, os machos têm testículos maiores e cérebros menores. Conforme os autores da pesquisa, se a morcego fêmea acasala com mais de um macho, fica estabelecida a competição: quem ejacular o maior número de espermatozóides vence a disputa. Pelo menos, isso é o que assegura o biólogo Scott Pitwick, coordenador do estudo, que analisou 374 espécies. A conclusão, segundo ele, é que, neste caso, tamanho é documento.

O aspecto mais curioso desse estudo, que foi publicado na revista "Proceedings of the Royal Society: Biological Science", é a comprovação de que, pelo menos alguns animais, durante o processo evolutivo, trocam desenvolvimento intelectual pela capacidade reprodutiva, conforme explica David Hoskens, biólogo do Centro de Ecologia e Conservação da Universidade de Exeter, na Inglaterra. Segundo ele, os morcegos priorizam os testículos e esse investimento tem de sair de algum lugar, já que nenhum benefício é grátis. É mais ou menos -digo eu- como no capitalismo, aliás, como na economia: o dinheiro que se investe em determinado setor saiu de algum outro; não existe mágica nem milagre.

O cientista explica que o corpo do macho canaliza a energia para aumentar os testículos e conseguir, assim, maior vantagem para se adaptar à situação nova, criada pela solicitação sexual das fêmeas. O que me intriga é que essa energia, que lhe faz crescer os testículos, tenha que sair-lhe do cérebro, disso resultando que, no caso dos morcegos pelo menos, quanto maiores os testículos, menores os miolos.

Já se viu que esse incremento testicular é determinado pela necessidade de aumentar a produção de esperma, e que essa produção resulta da solicitação sexual de certas morcegas insaciáveis. São elas que, desrespeitando as normas da monogamia, seduzem os parceiros das outras, com a conseqüência lamentável -do ponto vista intelectual- de terem eles o cérebro diminuído. Em compensação -alegarão outros, defensores da liberação sexual e do hedonismo-, têm mais prazer, o que remete a uma nova questão, que é saber se o prazer sexual é superior ao prazer intelectual que, no caso dos morcegos, não sei avaliar. E, no caso dos humanos, também não.

O que de fato me grila, nesse assunto, é por que, para crescerem os testículos, têm que diminuir exatamente o cérebro; não poderia, por exemplo, diminuírem as asas, as patas, o estômago? Dizem os cientistas que o fator determinante dos processos biológicos -e dos outros- é o acaso, que é, como se sabe, o contrário de Deus, razão por que seria injusto responsabilizá-lo pela redução da capacidade intelectual dos morcegos.

O acaso formou o morcego tal como ele é hoje, e ele poderia permanecer com seus testículos proporcionais ao cérebro, não fossem as morcegas desavergonhadas que -por acaso ou por necessidade- só pensam "naquilo". Pode-se alegar a favor delas que agem para garantir a sobrevivência da espécie, dado que têm um só filhote por ninhada e apenas duas tetas.

Deixando de lado o caso de Batman, não sei se essa relação cérebro-testículos se mantém nos humanos. Entre os morcegos, os monogâmicos têm cérebro e testículos de tamanho normal; a questão é saber se ocorre o mesmo com os cidadãos bem casados, que não pulam a cerca. E os devassos, teriam a atividade mental proporcionalmente inversa à sua atividade sexual? Ou, falando francamente, transar muito faz o cara ficar burro? Não garanto, mas a verdade é que o povo, sem qualquer base científica, costuma dizer de certos homens que "têm os testículos no lugar do cérebro".

De qualquer modo, tanto no caso dos morcegos como no dos humanos, a culpa caberia à fêmea que, a exemplo de Eva, arrasta o cara para o mau caminho. Dizem até que Adão, antes de conhecê-la, era muito mais inteligente. Do que duvido."

Fonte: Relações perigosas (Folha de S. Paulo, 12 de março de 2006)

De volta à estante

Embora não façam parte da bibliografia oficial de pesquisa de Batman, gosto de citar obras, sobretudo as nacionais, que citam o herói no seu texto. É o caso clássico da coletânea de poemas aos pés de Batman (Iluminas, 1994), de Joaquim Paiva. "um peixe espada uma paleta de pintor uma pipa el abanico estamos indo do Velho ao Novo Continente piso por um fio a vida me vale de lâmina não fora o vale de lágrimas uma arraia um bico de gaivota vou jogar-me aos pés de Batman", escreve ele na página 21. Outro ainda mais clássico é o romance pós-moderno A Morte de D.J. em Paris (Lançado nos anos 70 e republicado em 2002 pela Objetiva), do inesquecível cronista mineiro Roberto Drummond. O escritor de Hilda Furacão cria um jovem e perturbado personagem chamado Batman. Foi peça de teatro, interpretada pelo também genial Luiz Arthur. "Numa 6ª feira os vidros das janelas do apartamento de Batman tremeram pelo chão" é um trecho do livro. Seria igual ao presságio de Batman Ano Um? Leiam.