12 de maio de 2009

Mito Setentão

Ao completar sete décadas de existência, Batman se consagra como megassucesso de vendas

Sílvio Ribas

Festa do septuagenário aqui no Brasil ainda não decolouBatman chega este mês aos 70 anos com fatos e números dignos de respeito e estudo. O famoso personagem das histórias em quadrinhos, propriedade do grupo norte-americano Warner, se consolidou como a mais bem-sucedida e duradoura obra coletiva da indústria cultural, marcada por dezenas de colaboradores e por coleção de sucessos em todas as mídias, particularmente na televisão e no cinema. Se depender dos produtores do homem-morcego e dos aficionados do personagem espalhados pelo mundo, essa trajetória ainda vai longe. "Este é o ano do morcego! Celebrar sete décadas não é pra qualquer um. Temos boas surpresas reservadas para os fãs do herói", promete Levi Trindade, editor de revista de Batman no Brasil (publicada pela Panini) em recente comunicado.

Apesar desse entusiasmo todo, a festa do septuagenário — que chegou às bancas e ao mundo pela revista Detective comics em maio de 1939 — ainda não decolou. "A meu ver, aqui no Brasil tudo está passando meio despercebido, já que as empresas não se interessam tanto em promover eventos ou exposições como no exterior", observa Renato Araújo, presidente do Batbase, maior fã-clube brasileiro dedicado ao personagem.

Especialistas acreditam que talvez a combinação da crise financeira mundial, que tem os Estados Unidos como epicentro, com a hiperexposição de Batman em 2008, ano em que o filme Cavaleiro das trevas bombou nas telas e arrecadou mais de U$ 1 bilhão apenas nos cinemas americanos, tenha impedido grandes lançamentos e relançamentos especiais de gibis. Trata-se de breve pausa para novos voos, garantem os batmaníacos. Para piorar, o vingador mascarado está "morto" nas páginas de sua revista mensal nos EUA. A série Descanse em paz (RIP), prevista para chegar ao país em junho, abriu caminho para uma guerra entre candidatos a envergar a capa e o posto dele.

CARISMA
Também chamado de Cruzado Embuçado, o super-herói fantasiado tem seu carisma explicado pelo fato de não ser exatamente um "super-herói". O vigilante de Gotham não possui superpoderes, não é imortal e mantém uma fachada social como playboy multimilionário. Sua personalidade introspectiva desperta curiosidade, sobretudo pelas motivações que o levaram a ser uma criatura sombria a serviço da Justiça. Para o rabino norte-americano Cary Friedman, autor de A sabedoria da Bat-Caverna, a força de vontade e a determinação do herói em transformar o sentimento de vingança em algo positivo podem até servir de exemplo para agentes da lei.

Mas não foi só o combate ao crime que preencheu os 70 anos de Batman. Dúvidas existenciais, desafios naturais e surreais o testaram como a nenhum homem. Relacionamentos afetivos com belas mulheres e uma tensa relação com inimigos e amigos também pesaram.

Enquanto os céus de grandes metrópoles e mesmo os da fictícia terra natal de Batman, Gotham City, não exibem bat-sinal de festejos, colecionadores e imprensa especializada contabilizam os feitos do cavaleiro das trevas. Um rápido balanço mostra que seu desempenho é invejável. O mais premiado desenho animado, a mais influente série de tevê, 20 anos de blockbusters no cinema, gibis antológicos, uma avalanche de produtos licenciados e várias adaptações oficiais e paródias na mídia.

O personagem consolidou ao longo desse período duas dimensões: como mito contemporâneo e como ícone cultural. O criador, Bob Kane, adolescente na época, misturou ideias de personagens distintos para criar Batman. Sem creditar devidamente o coautor, o roteirista também jovem Bill Finger, nunca poderia imaginar que sua criatura ganharia rumo próprio, agregando elementos de geniais artistas. Hoje, Batman pode ser colocado no grupo de arquétipos reconhecidos universalmente, como Papai Noel, Robin Hood e Drácula. (Colaborou Pedro Brandt)



Fonte: Correio Braziliense

Bat-notícia de Portugal

Homem-morcego surgiu pela primeira vez na revista "Detective Comics" de Maio de 1939

Por F. Cleto e Pina

Há 70 anos, a revista "Detective Comics " publicava a primeira banda desenhada de Batman, um dos mais célebres, populares e rentáveis heróis da indústria dos quadradinhos norte-americanos.

Na capa, estava impressa a data de Maio de 1939, embora alguns estudiosos afirmem que foi posta à venda a 18 de Abril ao preço de 10 cêntimos - que teriam sido um óptimo investimento para quem tivesse guardado um exemplar em bom estado, pois hoje facilmente atingiria os 300 mil dólares (cerca de 225 mil euros).

Essa primeira BD, "The Case Of The Chemical Syndicate", gráfica e narrativamente ingénua para os nossos dias, "Bat-Man", era apresentado como "uma personagem misteriosa e aventureira que luta pelo bem e derrota malfeitores" e investigava uma série de roubos e assassinatos. O seu lado negro já estava patente, como demonstra o comentário feito após lançar acidentalmente um bandido para um tanque de ácido: "Um fim perfeito para a sua laia"!

Por detrás do herói, combinação improvável de Zorro com Drácula e os policiais negros então em voga, estavam Bob Kane (1915-1998), desenhador e responsável por muita da mitologia da personagem, e Bill Finger (1914-1974), argumentista (raramente creditado) a quem se devem o tom policial e a sua identidade secreta, desvendada na penúltima vinheta: "Bruce Wayne, um entediado jovem milionário".

Em oposição aos sempre "bons" Superman/Clark Kent (criados um ano antes e a quem vinha fazer concorrência), em Bruce Wayne/Batman, a dualidade é gritante. O primeiro é um playboy milionário, atormentado pela morte dos pais e o desejo de se vingar contra o mal em geral; o segundo, é o instrumento dessa vingança. Por outro lado, ao contrário do "rival" Superman e de quase todos os outros super-heróis que se seguiram, Batman não tinha super-poderes, assentando a sua acção na inteligência, numa apurada forma física e numa vasta gama de acessórios científicos e tecnológicos, que evoluíram com a passagem dos tempos.

Assim, a proximidade com o leitor de quadradinhos, ávido por escapes ao quotidiano do país saído da recessão e a caminho de uma guerra mundial, fez com que a sua popularidade disparasse de imediato. Por isso, a par do aliado Robin, introduzido um ano depois, sucederam-se vilões marcantes: Joker, Pinguim, Duas Caras... A sua estreia no cinema deu-se em 1943, interpretado por Lewis Wilson e Douglas Croft, e na TV em 1966, numa série de culto com Adam West e Burt Ward.

Na BD, para além de Kane, dois nomes ficaram especialmente ligados ao cruzado mascarado: Jerry Robinson, que amenizou o tom soturno das histórias com a criação de Robin, durante as décadas de 40 e 50, e Neal Adams, que recuperou o seu lado mais negro, nos anos 70.

Foi esse mesmo lado mais negro que o (então) genial Frank Miller explorou em 1985 em "O Regresso do Cavaleiro das Trevas", uma BD que fez disparar a popularidade de um herói então pouco mais que moribundo e mostrou - juntamente com "Watchmen" - que os comics também podiam ser lidos por adultos cultos e exigentes.

Depois dele, nada ficou como dantes, com muitos autores a explorarem um Batman cujas melhores armas são o medo e o terror, privilegiando os fins, sejam quais forem os meios para lá chegar, confundindo-se muitas vezes a sua metodologia com a daqueles que combate, muitas vezes no limite (apenas?) entre a legalidade e o crime, defender a lei e fazer justiça, a sanidade e a loucura.

Fonte: Jornal de Notícias (redundante?), Portugal. 10 de maio de 2009