27 de abril de 2014

Do baú de bat-pesquisas

In the shadow of the bat "He is perhaps the only genuine hero amongst all of them", Alan Grant says. "People say Batman is this dark, vengeance-driver, obsessed character, but that's not Batman to my eyes. That's just the fuel wich drives Batman. The trauma of his parents' death is what motivates him and forces him to go on, but what makes him Batman is a decision. He took a decision to be a good guy, wich is a decision in life not too many people do take. He is a self-made character. He did't get superpowers, he's not a cyborg, he made a choice to be what he is. He is motivated by the terrible thing that happened to him when he was a kid, but that's not the thing that defines his character. What defines his charachter is his decision to do somethig".
Na sombra do morcego "Ele é talvez o único herói genuíno contra todos os demais", diz Alan Grant. "Dizem que Batman é "dark", vingador, personagem obsessivo, mas não é isso para meus olhos. Isso é apenas o combustível que move Batman. O trauma da morte de seus pais é o que o motiva e lhe força a continuar, mas o que o faz Batman é uma decisão. Ele tomou uma decisão de ser um cara bom, que é uma decisão de vida não muitas pessoas tomam. Ele é um personagem feito por si mesmo. Ele não tem superpoderes, ele não é um ciborgue, ele fez uma escolha para ser aquilo que é. Ele é motivado pela coisa horrível que aconteceu quando era um garoto, contudo não é isso que define seu personagem. O que define seu personagem é sua decisão em fazer algo." Fonte: Revista Wizard, junho de 1995, página 37.

Coringa: retrato jocoso do Mal

Por Sílvio Ribas Inspirado na carta do baralho "Joker" e no cartaz do longa expressionista "O Homem que Ri", de Vitor Hugo, o jovem desenhista Jerry Robinson - e não Bill Finger como sempre se afirmava - criou, em 1940, o maior vilão dos quadrinhos, o Co(u)ringa, inimigo nº 1 de Batman, criado por Bob Kane, em 1939. Com cabelos verdes, lábios muito vermelhos, palidez mórbida e trajes púrpura e laranja, o Coringa é um poço de ódio e amargura escondido sob a "máscara" de palhaço. O objetivo de sua criação era, segundo o próprio Robinson, "fugir do estereótipo de bandido muito freqüente nas estórias, que surgia para enfrentar o Homem-Morcego". Mas teve de enfrentar as ressalvas do governo, que receava que as personagens criminosas tivessem destaque igual ou superior aos dos heróis. Uma sucessão de assassinatos nos quais as vítimas envenenadas tombavam à meia-noite com um grotesco sorriso estampado nas caras de seus cadáveres: assim começava a primeira estória com o Coringa, publicada um ano após o surgimento do cruzado da capa, narrando uma sequência de mortes que serviam de cartão de apresentação do novo inimigo. Seus crimes seriam sempre marcados por pistas satíricas endereçadas a Batman. Tão cinqüentão quanto seu arqui-rival, o palhaço do crime é também o mais louco dos vilões: sem um passado conhecido do seu público e sem identidade reconhecível. Em determinado momento, foi feito uma cruzamento entre a estória do Coringa com a de outro bandido da HQ - o Capuz Vermelho, para dar-lhe uma "biografia", uma referência de suas origens. Nos períodos mais duros da censura oficial, esse bandido sádico e risonho, que muitas vezes prefere o terror coletivo ao dinheiro, tornou-se mais um gozador do que um assassino psicopata. O seu humor negro e o "show" de tiranias só ressurgiria no final dos anos 70. Brincalhão e sádico - Sobre o diabólico arlequim, a mais cruel personagem da HQ universal, pesam atrocidades como a recente morte de Robin/Jason Todd (1988) e o atentado que levou à invalidez de Bárbara Gordon/Batgirl (1989). Duas belíssimas obras: "Arkhan Asylum", de David McKean, e "Killing Joke", de Brian Bolland, trazem o "Princípe do Crime" como protagonista e ajudam a definir melhor essa surpreendente figura. Em "Arkham", ele atrai Batman para o conhecido sanatório-prisão de criminosos insanos, onde montou um terrível ardil. O Coringa tenta de todas as formas induzir seu inimigo a admitir sua paranóia, o que colocaria Bruce Wayne em pé de igualdade com os internos que combateu e ajudou a prender. Em "Killing Joke" Batman busca dialogar com o Coringa para pôr um fim na interminável guerra entre os dois, mas acaba sendo infernizado por uma piada mortal. Coringa, um insano vilão que se tornaria o oposto perfeito e a nêmesis de Batman, colaborando para mudanças marcantes na personalidade conturbada do herói, é agora o ponto central de uma obra antológica no mundo dos quadrinhos que influenciou decisivamente o filme "Batman", no ano do cinquentenário do Morcegão. Em "A Piada Mortal", o Dr. Watson de Batman - Comissário Gordon - eixo de sanidade entre ele e seu oponente - é premiado pelo Coringa com uma viagem rumo à loucura. Ele não descansa enquanto não concluir seu intento. Esse convite à loucura é estendido a Batman pelas suas "afinidades" com o cicerone - "A diferença entre eu, o louco, e o mundo, de normais, é que eu tive um dia ruim", diz o Coringa em determinado momento. Na HQ "Os Campeões do Mundo", o Coringa atua fora de sua cidade Gotham City, território defendido por Batman. Agora ele está na reluzente Metrópolis, terra do falecido Superman. Na sua aparição no clássico "O Cavaleiro das Trevas", de Frank Miller, ele é visto como um demente curado pela psiquiatria moderna. Ledo engano e nova fuga. A versão cinematográfica - Nas telas, encarnaram o genial e hilariante vilão os atores César Romero e Jack Nicholson, Romero no famoso seriado da TV dos anos 60 e Nicholson no primeiro filme de Tim Burton. Enquanto o primeiro compunha com outros atores consagrados o elenco da produção "camp" de Willian Dozier, Nicholson explorava com maestria o perfil nefasto do psicótico, com sensacionais tiradas e com o "psiqué du role" maléfico que inspirava o papel. Esse caráter foi explorado por Nicholson na sua participação em "As Bruxas de Eastwick" como o neurótico Daryl Van Horne, papel que o credenciou decisivamente o ator para viver o ensandecido criminoso no cinema. O Coringa literalmente roubou a cena em "Batman I", não só pela força inerente ao personagem mas especialmente pela interpretação bem superior de Jack Nicholson à de Michael Keaton como Batman. Enquanto o Coringa roubava cenas com seu olhar selvagem e suas gargalhadas, Keaton parecia um manequim de vitrine a exibir seu "biquinho" nas cenas mais empolgantes. Um ser dual - A dualidade do Coringa pode ser constatada não só no plano existencial mas também através de Batman. Enquanto ele revela externamente, no seu físico, o contrário do que seu pertubado interior, cheio de rancores, cultiva, enseja uma imagem alegre que, com Batman, faz o jogo de "duas faces da mesma moeda". Mas trata-se de um maniqueísmos às avessas: o bem parece mau com o negro do sombrio Batman e o mal parece bom com o colorido carnavalesco do Coringa. O principal "re-writer" do roteiro de "Batman I" - Warren Skaaren - justifica o fato do Coringa/Jack Napier ser na estória o assassino dos pais de Bruce Wayne como forma de reiterar uma inimizade visceral, dizendo que "quem poderia ser o seu maior inimigo senão quem matou seus pais?".

Texto do vídeo-documentário de 1990

Prezados, para quem quiser os subtitles do vídeo sobre a semiótica de Batman, que produzi no começo dos anos 1990 e que foi postado pelo meu amigo Leo no Youtube, eis aqui a íntegra do texto digitado originalmente na máquina de escrever. "1939. Para criar um personagem que concorresse com o Super-Homem, o jovem desenhista Bob Kane, então com 18 anos, cria "Batman", o Homem-Morcego, ajudado pelo roteirista Bill Finger e inspirado nos filmes "The Bat" e "A Marca do Zorro". Os desenhos de Kane têm um traço duro e barroco. Batman nasceu misterioso, implacável e impiedoso. O Homem-Morcego era uma mistura de Conde Drácula, Sherlock Holmes e Zorro. Em 50 anos de vida, Batman tem mudado de sentimentos e convicções ideológicas como qualquer pessoa. Duas faces do personagem são conhecidas de todos: a do cruzado cômico da TV e do cavaleiro apocalíptico do filme "Batman", herdeiro da obra referencial "O Cavaleiro das Trevas", de Frank Miller. O garoto Bruce Wayne assiste ao assassinato dos pais aos oito anos e a partir daí jura vingança e dedica a sua vida ao combate ao crime. Adulto, o milionário playboy e filantropo com estupendo preparo físico e dotado de várias habilidades, concentra-se em procurar uma forma de torna-se o inimigo primeiro dos criminosos. "Criminosos são supersticiosos, covardes, então devo dar-lhes terror. Que me vejam como uma criatura da noite. Um morcego. Sim, serei um morcego". Vestido como morcego, Bruce é Batman, terror dos bandidos. Sob a mansão Wayne está a bat-caverna, sede de suas atividades secretas. Depois de algum tempo só, Batman acolhe e treina o órfão trapezista Dick Grayson, cujos pais também foram mortos criminosamente. O desejo de vingança os une em uma dupla, a "dupla dinâmica". Batman, um ser gótico, violento e soturno começa a se humanizar com o menino-prodígio. Robin foi o freio de sua psicopatia. Muitos vilões surgiram para lutar contra Batman, mas o Coringa, o insano Palhaço do Crime, se tornou o oposto perfeito. Quando Robin vai para a universidade, o Cavaleiro das Trevas, sempre apoiado pelo seu talentoso mordomo Alfred e contracenando com o Comissário Gordon, adota um novo Robin, Jason Todd. Jason é assassinado pelo Coringa. Batman, novamente o guerreiro solitário, fica no dilema entre a lógica e a loucura. Incluindo uma conturbada vida amorosa. Quatro fases pontuam a vida do herói. A primeira, liga à sua origem taciturna. A segunda, a partir da parceria com Robin entre os anos 40 e 60, com aventuras psicodélicas e a proliferação dos vilões caricatos de Gotham, como a Mulher-Gato, o Pingüim e o Charada. O seriado da TV marca o "nonsense" dessa longa fase. A terceira fase, localizada nos anos 70, marca o resgate das origens do personagem imprevisível e falho. E a última e atual fase revela-se a síntese da biografia cinqüentenária do vingador mascarado. Uma análise semiótica de Batman mostra os muitos elementos que regem o super-signo que ele é. As orelhas pontudas de sua máscara apontam para o céu negro. Seu semblante sisudo, olhos rasgantes e frios revelam o interior perturbado. Coberto e misturado pela noite, Batman encarna o medo humano pelo desconhecido da escuridão. O morcego, donde Batman forjou seu visual notívogo, é um mamífero voador que foi e é reconhecido por muitas culturas como animal amaldiçoado e místico. O super-heroísmo de Batman difere por estar mais perto do real. Ele não é o dono da noite. É a própria noite. O Homem-Morcego sempre mostra-se parcialmente ocultado ou confundido por sombras. Ele vaga por lugares ermos, emerge e desaparece no breu. É irônico às vezes e fala pouco. Seus olhos brancos são um aspecto sinistro de desenhos de figuras mascaradas. Ambigüidade, tormenta e solidão marcam a personalidade de Batman. Bruce Wayne é a identidade secreta ou o disfarce de Batman? O tamanho da capa, o feitio do escudo e o cinto variaram com o tempo, um visual passado e um atual. O emblema, como um ícone de morcego inscrito numa base ovalada amarela, serve para destacar e fazer ressoar o signo "bat" em outros referentes. Para os que desconhecem o emblema-signo, ele pode parecer uma boca com sete dentes. A arquitetura de Gotham City pode ser chamada de psicótica. A simetria gera a necessidade de Brechas para os dois lados do ser, numa luta contra a razão. A dualidade Batman/Coringa é vista num mal que, de tão gozado, deixa de ser ruim e um bem que, de tão sisudo, deixa de ser bom. A face branca do mal versus a face negra do bem. O Coringa também é dual quando sua face exterior sorri, quando na verdade não está. Batman é herói multimída cujo signo é dado pela biografia, no visual, nas atitudes e é composto no homem-noite. Uma mensagem maniqueísta e alucinada. Batman é primeiridade, secundidade e terceiridade porque abala, induz e imprime uma linguagem. O complexo ser mitológico do século vinte acontece num fenômeno semiótico de primeira grandeza".